Nunca me iludi quanto a existência da influência de determinadas religiões sobre alguns assuntos de Estado,
justamente pela cultura do "toma-lá-dá-cá", pois isso abrange
milhares de eleitores.
Entretanto, dizer que um Estado é
laico, como o nosso, é dizer que não há envolvimento religioso em assuntos
governamentais e vice-versa.
Entendo por "envolvimento religioso" a inserção de doutrinas religiosas em atos normativos e no próprio Estado. Da mesma forma, o Estado não pode dizer no que as pessoas devem ou não crer, no que devem ter fé.
Tal afirmativa não diz que as diversas religiões constantes no país não possam ser ouvidas ou representadas.
Tal afirmativa não diz que as diversas religiões constantes no país não possam ser ouvidas ou representadas.
Vi circularem notícias de que o
Estado laico em nosso país acabará. Abismada, pesquisei e, como estudiosa constitucionalista
por convicção, fui me aprofundar a respeito do assunto.
As manchetes das matérias, claro
que visando o maior número de cliques (quanto maior o número de visitações,
maior também ficará o preço de anúncios = $$$), tem distorcido o teor da PEC 99/11. Ela inclui as Associações
Religiosas (não menciona quais, ou seja, qualquer associação de qualquer
religião) no rol de legitimados para propor as Ações Diretas (de
Inconstitucionalidade e Declaratória de Constitucionalidade) perante o STF
questionando a validade de lei EM FACE DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA e não em
face de escrituras consideradas sagradas para as respectivas religiões
representadas por suas associações. Então, não vejo como o Estado pode deixar
de ser laico.
Em cada segmento religioso há um
número considerável de pessoas que querem ser ouvidas, querem opinar. Nada
impede que os ateus também o façam. Neste sentido, nada mais democrático: ouça-se.
Lembrando sempre que a palavra
final é do Supremo Tribunal Federal, guardião da Constituição, em decisão
colegiada irrecorrível e com efeito contra todos.
Não consigo ver o porquê de tanto
rebuliço... Há uma queda de braços entre algumas religiões e/ou entre essas e
aqueles que não têm nenhuma, o que é lamentável. Foge do respeito ao princípio
da liberdade de crença. Cada um quer impor a sua verdade.
Muitos se apavoram por temer que
a união homoafetiva possa ser revogada. Acalmem-se, não poderá. O Supremo Tribunal
Federal lançou mão do fenômeno da mutação constitucional, com base no princípio
da isonomia/igualdade, para ampliar o conceito de família constante no artigo 226,
da CRFB/88, já que o referido artigo não limitou ao homem e mulher, mas foi
omisso quanto às novas relações familiares que estavam surgindo. E como o
direito é e deve ser dinâmico, nada mais justo do que não deixar essa
expressiva parte da sociedade sem a devida proteção jurídica que se espera do
Estado.
"O manejo da analogia frente
à lacuna da lei é perfeitamente aceitável para alavancar, como entidade
familiar, na mais pura acepção da igualdade jurídica, as uniões de afeto entre
pessoas do mesmo sexo". (Ministra Nancy Andrighi)
E a imprensa marrom fomenta essa
guerra, gera "inimigos"... gera indignação cega. Cega sim, pois foge
à razão. Muitos hoje não refletem a respeito daquilo que leram e, muitas vezes,
por desconhecer a nossa Constituição se apavoram e disseminam informações
equivocadas.
Tudo hoje é extremo, muito
sensível à opinião contrária (discordância e ofensa tem uma linha tênue e muito
subjetiva) e a espetacularização dos direitos e garantias fundamentais, dos
direitos sociais e políticos está formando uma geração alienada e preguiçosa
quanto à busca da procedência dos fatos.
E as redes sociais que dão voz à
movimentos legítimos, também servem de palco para execração pública de inúmeras
pessoas por imagem, nomes, dados pessoais etc. Pegando o gancho deste feriado,
posso dizer que é assim: nas redes sociais todo dia é sábado de aleluia. Quem
será o Judas a ser malhado hoje?
Ninguém pode ser considerado
culpado até sentença definitiva transitada em julgado, através do devido
processo legal e respeitado o direito ao contraditório, etc. Felizmente é
assim.
Voltando à PEC, ela ainda não foi
aprovada. E se for, devemos temer as decisões da nossa Côrte Suprema?
E enquanto isso, no Congresso
Nacional... ?
Muito interessante e oportuno este tema ser suscitado, pois muitas pessoas confundem estado laico com liberdade de expressão e democracia.
ResponderExcluirObrigada, caro leitor!
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